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iSaludos latinoamericanos!
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iSaludos latinoamericanos!
Primeiro de quatro partes do especial que escrevi quando estive na cidade de Potosí (Bolívia) para o site novae.
Entre os séculos 16 e 17 Potosí foi uma das mais importantes e vivas cidades do mundo, com população maior que a de Paris ou Nova Iorque. Isso porque em 1545 foram descobertas imensas jazidas de prata no Cerro Rico, a montanha-guardiã da cidade.
O ciclo da prata gerou grande fluxo populacional e riqueza econômica e cultural, a ponto de a expressão “vale um Potosí” ser usada para designar coisas muito valiosas ou de
valor incalculável. Foram construídas belas igrejas, monumentos, edifícios históricos, e diversas obras importantes foram produzidas por artistas que ali se instalaram.
Infelizmente, nem tudo continua como antes: igrejas saqueadas, prédios coloniais mal-cuidados e, principalmente, pobreza são parte da paisagem potosina nos dias de hoje. Ainda assim, as estreitas ruas da Potosí moderna exalam um misto de charme e decadência coloniais, consequência da voracidade do capitalismo mercantil, resumido na citação de Eduardo Galeano no clássico As Veias Abertas da América Latina, que a define como “a cidade que mais deu ao mundo e que menos tem.”
Especial “Quanto vale um Potosí?”
Textos seguintes.
-Nas minas de Potosí
-Turismo nas minas
-Das minas ao turismo
Ainda que pareça exagero, ficou conhecida outra frase, que diz que com a prata retirada das minas potosinas seria possível construir uma ponte ligando Potosí a Madri, capital da colônia. Hoje ainda há extração de prata em menor quantidade, além de chumbo, estanho e zinco.
Conta a lenda que o primeiro a chegar ao local foi o inca Huayna Cápac, suspeitando da riqueza mineral do Cerro Rico. Porém, lá escutou uma explosão vinda de dentro da montanha (daí o nome inicial Potojsí, que significa algo como explosão na língua quéchua) e uma voz que dizia que a riqueza dali não era para ele, e sim para outros que vinham de muito longe. Esses outros seriam os espanhóis que, em 1545, começaram a explorar as minas depois que um índio descobriu prata por acaso, ao fazer uma fogueira para proteger-se do frio quando teve que dormir no Cerro Rico.
A partir daí, a exploração colonial foi intensa, fazendo de Potosí uma importante cidade na economia mundial, da prata um produto destacado para a economia da metrópole, e dos índios mão de obra escrava abundante. Mesmo depois da independência do país e da decadência da produção de prata, a situação pouco mudou. Apesar dos altos preços dos minerais nas épocas das guerras mundiais, os favorecidos foram os grandes empresários, destacadamente os três “barões do estanho”: Patiño, Aramayo e Hochschild. 
Em 1952 instaurou-se a revolução nacionalista, que estatizou as minas com apoio dos mineiros. O controle seguiu até 1985, quando, diante da crise mundial e dos preços baixos dos minerais, o governo decidiu demitir milhares de trabalhadores, que tiveram que ir ganhar a vida como agricultores em outros países ou regiões bolivianas, ou como comerciantes nas grandes cidades. Diante da situação, começou a ganhar força a organização de mineiros em cooperativas, o que persiste até hoje no Cerro Rico, onde funcionam 27 cooperativas que controlam 182 minas.
Atualmente, estima-se que entre 6 e 7 mil pessoas trabalhem nas minas de Potosí, mas esse número pode aumentar ou diminuir, dependendo da demanda e do preço internacional dos minerais. A maioria dos trabalhadores é de jovens entre 20 e 25 anos, que veem a mineração como um trabalho temporário. Eles não possuem contrato de trabalho, e recebem o equivalente a 15-25 reais por dia de trabalho. Geralmente a jornada de trabalho é de 6 ou 7 horas, de segunda a sábado. Os mineiros mais antigos fazem parte de cooperativas e possuem direitos trabalhistas.
O trabalho é duro, e muito da tecnologia utilizada parece a mesma de séculos atrás. Cerca de quarenta mineiros morrem anualmente por acidentes de trabalho nas minas do Cerro Rico, por motivos como desmoronamentos, gases tóxicos, quedas em buracos ou explosões.
Série especial “Quanto vale um Potosí?”
Texto anterior:
-Quanto vale um Potosí?
Textos seguintes.
-Turismo nas minas
-Das minas ao turismo
Como uma fênix que renasce das próprias cinzas, Potosí consegue atrair novamente o olhar de estrangeiros para suas minas. A principal atração para os gringos que decidem estender sua viagem até a cidade é um tour que visita as cooperativas mineiras do Cerro Rico. Por cerca de 20 reais é possível conhecer por dentro a montanha que tanta riqueza deu ao mundo. O passeio dura 4 horas, com direito a guia e equipamento apropriado (roupas, botas, capacete e lanterna) para enfrentar a sujeira e a escuridão dos estreitos túneis que levam à extração dos minerais.
O tour começa com uma visita ao Mercado Mineiro, onde se encontra todo tipo de aparato útil para enfrentar a dureza do trabalho nas minas, desde dinamites e lanternas até cigarros e folhas de coca. Os visitantes compram “presentinhos” para os trabalhadores que encontram pelo caminho: refrigerantes, biscoitos, folhas de coca, álcool potável ou o piltulcho – cigarro típico composto de tabaco, coca, canela e anis.
Depois os turistas entram nas minas, onde podem conhecer melhor a história do local e o sistema de trabalho através de informações fornecidas pelo guia e conversas com mineiros em atividade.
A cultura dos operários dessa atividade também pode ser percebida, especialmente através da figura do Tío, presente em praticamente todas as minas do lugar. Trata-se de um diabo que se tornou uma espécie de padroeiro dos mineiros. Inicialmente, a imagem foi colocada pelos colonizadores com intenção de fazer com que os trabalhadores se sentissem vigiados, porém a tentativa não durou muito. Com o tempo, o Tío virou uma espécie de deus das minas, já que na cosmovisão andina um deus não é bom ou mau – sua força está no poder de dar ou tirar. Por isso, toda primeira e última sexta-feira do mês os mineiros fazem oferendas com álcool, cigarro e coca para agradecer ou pedir ao Tío.
Série especial “Quanto vale um Potosí?”
Textos anteriores:
-Quanto vale um Potosí?
-Nas minas de Potosí
Texto seguinte:
-Das minas ao turismo
Há cerca de 20 anos, quando começava a exploração turística das minas, alguns mineiros foram convidados por uma agência para serem guias. Um deles era Freddy Mamani Quintanilla, que desde pequeno ajudava seu pai nas minas durante os fins de semana. Depois de terminar o colégio, ele foi trabalhar nas minas, onde ficou por quatro anos até que surgisse o convite.
Parecia um trabalho muito mais fácil e menos sacrificante, e assim Quintanilla trabalhou cerca de 10 anos como guia turístico. Mas segundo ele, “havia muito egoísmo e controle e
uma certa desconfiança por parte das agências de turismo”. Por isso, em 1998 ele abriu seu próprio negócio, que hoje oferece tours em inglês e espanhol, guiados por ex-mineiros e estudantes de turismo da cidade.
As visitas às minas beneficiam setores da economia local, como hotéis, restaurantes e serviços de transporte. Além disso, as cooperativas mineiras recebem, pelo direito de entrada nos seus locais de trabalho, o equivalente a 15% do valor pago pelos turistas. Perguntado se os trabalhadores não se sentem incomodados com a presença de visitantes fotografando-os constantemente, o ex-mineiro diz que alguns sim, mas que “a maioria se sente feliz, já que recebe presentinhos e sabe que as visitas arrecadam fundos que podem ajudar a melhorar as condições de trabalho.”
Quintanilla ressalta a força da indústria do turismo e a importância de oferecer um serviço de qualidade para fortalecer a economia da cidade e do país. Se as riquezas minerais do lugar certamente um dia irão acabar, o turismo, por outro lado, tem potencial inesgotável.
Textos anteriores da série “Quanto Vale um Potosí?”:
-Quanto vale um Potosí?
-Nas minas de Potosí
-Turismo nas minas
Ano passado, no encontro de História das Américas realizado na Ufes pude fazer um ótimo minicurso de cinema com as jovens doutoras Mariana Vilaça e Mônica Araújo Lima. Cada uma seguiu um pouco de sua linha de pesquisa: Mariana sobre cinema cubano e Mônica sobre o argentino. Apesar do pouco tempo de curso deu pra aprender algumas coisas, que vou explicitar adiante.
O chamado Nuevo Cinema Latino-Americano foi um importante movimento artístico e político que floresceu principalmente nos anos 60 e 70. Na Argentina, a produção iniciou-se no Instituto de Cinematografia de Santa Fé, que apesar de sua curta duração (1956-1962) foi muito relevante na formação dessa escola latino-americana. Foi fundada pelo grande expoente argentino do nuevo cine, Fernado Birri. O cineasta havia estudado em Roma, onde sofreu influência do Neo-realismo italiano (Roberto Rosselini, Vittorio de Sica, Luchino Visconti), que encontrou formas baratas de fazer cinema no período pós-guerra e que tinha como marcas a grande recorrência às cenas externas e à abordagem do homem-comum. Birri também utilizou conceitos de Gramisci para defender o cinema como uma forma de disputa de hegemonia através do discurso. Tratava-se de uma tentativa de fazer um cinema que servisse tanto para a arte como para a trasformação social. A principal obra de Birri é o filme Tiridí.
O golpe violento golpe militar argentino em 1966 viria a causar importantes efeitos no cinema do país. Fernando Birri fugiu para o Brasil, onde desempenhou papel relevante. Enquanto isso, desenvolvia-se o Grupo Cine Liberación (1966-1971) que teve como membros destacados Fernando Solanas, Octavio Getino e Gerardo Vallejo. O filme mais importante desse movimento é a trilogia documental La Hora de Los Hornos, de Fernando Solanas, que conta a história de exploração e aponta possibilidades de transformação social a partir da luta popular.
No caso cubano, também destaca-se o tom documental e é relevante a influência do cinema-verdade francês e do cinema soviético (como o clássico “O Homem com a Câmera”, de Vertov). Um dos destaques é o documentário Hasta Siempre, de Santiago Álvarez. Muitos artistas vão filmar em Cuba à convite do governo revolucionário que acabara de assumir o poder.
Porém, a figura mais relevante do cinema cubano é Tomás Gutierrez Alea. O cineasta é um caso atípico, que utiliza a ironia, a paródia e a metáfora. Seu filme mais famoso, Memórias do Subdesenvolvimento, conta a história de um escritor burguês simpático à revolução cubana, mas que não consegue se inserir nela. Acaba perdido num vazio entre uma burguesia que foge para Miami e uma revolução popular que não é sua. Neste e em outros filmes o cineasta usa sua sutilieza para criticar a burocracia do sistema soviético, o que desagrada o governo cubano. Porém, por seu grande sucesso e projeção internacional desde o início da carreira, Alea acaba sendo “tolerado” pelo regime castrista. Ao abusar da ambiguidade, ele destoa da maioria dos autores do cinema político, que geralmente utilizam o maniqueísmo como recurso.
Outro importante feito para o cinema latino-americano foi a criação da Cinemateca del Tercer Mundo, no Uruguai. Na época, tratava-se do país onde mais se assistia filmes no continente, dotado de forte cultura cinematográfica. Porém, a ditadura militar destruiria a cinemateca, que mesmo assim continuaria tendo uma importância histórica por servir de exemplo para tentativas de fazer algo parecido em outros países da região.
“”Independência ou morte!”. O grito de D. Pedro primeiro às margens do Rio Ipiranga e o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas a Portugal mediante empréstimo da Inglaterra geraram o reconhecimento da nossa independência. Diplomaticamente o Brasil estava livre da colônia num processo que derramou mais tinta do que sangue e deu orgiem a um país nascido com uma dívida externa.
Ao contrário, a maioria dos países sul-americanos esteve envolvida em duras batalhas militares entre frentes independentistas e o exército real espanhol. Os heróis desse processo batizam diversas praças, ruas e avenidas ao longo do continente: Simón Bolívar, Sucre, San Martín, entre outros. Os libertadores da América pertenciam à classe chamada de criollos, descendentes de espanhóis nascidos no Novo Mundo, que começaram a desenvolver o sentimento nacionalista e divergências de interesse em relação à metrópole. 
O que muita gente não sabe é que dentre os heróis da indepêndencia sul-americana está um brasileiro que chegou a ser um dos mais importantes e influentes membros do exército libertador. O pernambucano José Inácio de Abreu e Lima foi exilado após a Revolução Pernambucana de 1817 e se alistou nas tropas de Bolívar, nas quais alcançou o posto de general e percorreu diversos países na luta contra a dominação espanhola.
O projeto “América de Abreu e Lima” pretende resgatar a história desse homem destacado na história da América Latina e pouco conhecido entre os brasileiros. O site possui informações sobre a vida e obra de Abreu e Lima e de outros libertadores do nosso continente. Destaca a importancia do brasileiro não só como militar mas também como intelectual: “Ao longo da sua vida agitada e combativa, ele também desenvolveu um intenso trabalho como jornalista, polemista, ensaísta e historiador, cabendo-lhe o mérito, entre outros, de haver sido o primeiro a divulgar as idéias socialistas no continente.”
Sem dúvidas ele é o personagem do momento e a figura mais importante da Bolívia nas últimas décadas: Evo Morales. Muitos amam, outros odeiam. Nesse país é impossível ser indiferente em relação ao líder sindicalista que tornou-se o primeiro indígena presidente de um país de população de maioria esmagadora formada por índios e mestiços.
Em tempos de candidatura presidencial (Evo é favorito para reeleger-se), valem as dicas de obras audiovisuais que ajudam a entender a figura do líder Morales.
O filme Evo Pueblo remonta à infância pobre e tradicional do menino Evo numa pequena vila até a migração para a cidade mineira de Oruro e sua chegada à província do Chapare, região tropical do departamento de Cochabamba, onde começavam a se intensificar as plantações de coca. Ali o jovem conheceria sindicalistas, se aprofundaria nas questões políticas e logo se tornaria um grande líder diferenciado em um período em que havia forte perseguição de policiais às lideranças locais.
O ponto forte de Evo Pueblo se dá durante esse período de repressão. Daí a produção dá um longo salto e parece que como mágica o líder sindicalista vira presidente. Apesar da produção simples e da fraca atuação do elenco, especialmente do ator principal que não dá conta de interpretar um personagem da magnitude de Evo, o filme vale pela incrível história desse líder e também pelo registro de paisagens e características culturais da Bolívia.
Cocalero é um documentário que retrata o presidente boliviano e a vida de cocaleiro. Ainda nao assisiti por isso nao farei mais comentários.
Pra quem quer assistir a essas duas obras basta clicar nos links sobre o nome dos filmes. Além desses dois, o Alba Multicanal oferece muitos outros filmes, documentários, rádio, TV, documentos e outras coisas relacionadas a América Latina.
O peruano Mario Vargas Llosa é, sem dúvidas, um dos mais importantes escritores contemporâneos na América Latina. O livro “A Festa do Bode” (La Fiesta del Chivo) mostra bem sua habilidade de escever, as tramas engenhosas e a crítica política presente na obra do autor.
A República Dominicana é o pano de fundo de duas histórias conectadas mas não simultaneas. Urania volta ao seu país de origem depois de muitos anos para visitar seu pai, um antigo político influente que agora encontra-se inválido em estado vegetativo. Ainda adolescente ela foi estudar nos Estados Unidos- justamente na época de decadencia política do seu pai- e se tornou uma profissional muito bem sucedida. Desde que saiu de seu país ela não respondeu a nenhuma carta de sua família e ao chegar revela profundo desgosto com seu pai.
Agustín Cabral, o pai de Urania, foi senador e ministro durante a ditadura na República Dominicana. A outra história percorre os tempos finais dessa ditadura recheada de figuras pitorescas como o próprio ditador, o extravagante Trujillo, apelidado de Bode; os playboys filhos dele; o discreto presidente de fachada Balaguer; outrso personagens como o própro Cabral e líderes clandestinos que pretendem assassinar o ditador.
O desenrolar da trama vai revelar as artemanhas do ditador para manter a ordem e o poder no país, os embróglios internacionais que ameacam a ditadura, as conspirações para assassinar Trujillo e também a decadência inexplicada do senador Cabral e o motivo pelo qual sua filha nutria tanto ódio por seu pai e pelo ditador. O texto de Vargas Llosa é delicioso e a crítica caricata, cômica e inteligente. O interessante é que o texto mistura ficção e realidade, pois Trujillo realmente existiu e foi um ditador que governou a República Dominicana com mão-de-ferro durante três décadas.
Baseado no livro de Juan de Recacoechea, American Visa é um filme bem produzido pelo roteirista e diretor Juan Carlos Valdivia
Um professor de inglês boliviano separa-se de sua esposa e vê seu único filho ir estudar nos Estados Unidos. Sem muitas perspectivas de vida, Mario Alvarez decide ir à capital La Paz para conseguir um visto de turista norte-americano. Na verdade trata-se de um pretexto para poder rever seu filho, ficar ilegalmente e começar outra vida no país distante.
Apesar de julgar que atenderia todos os requisitos (ele oculta o fato de ter um filho morando nos EUA porque isso dificultaria), o professor acaba tendo o visto rejeitado sendo obrigado e impedido de tentar nos próximos seis meses. Ele decide então tentar obter a permissão ilegalmente, e se vê obrigado a buscar um dinheiro que não tem.
Em meio a essa espera, Mario acaba se envolvendo e apaixonando por Blanca, uma sensual stripper interpretada com destaque por Katie del Castillo. Blanca quer abandonar sua profissão mais rechaça a possibilidade de ir viver nos Estados Unidos. Ela propõe a seu amante que se casem e vão viver no interior. O professor acaba ficando a ponto de decidir entre a viagem e a mulher que ama. A trama envolve sedução, crime e aventura.