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O período da ditadura militar é muito recorrente nas produções do cinema brasileiro. O Que é Isso, Companheiro?, Lamarca”, Cabra-Cega, Quase Dois Irmãos e O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias (representante do Brasil no Oscar 2007) são alguns bons filmes que tem como tema direta ou indiretamente o período do regime militar no país. O cinema torna-se uma importante fonte de registro póstumo dessa época, já que nesse tempo as produções críticas ao regime eram alvo de censura. A possiblidade de abertura dos arquivos da ditadura gera esperança de justiça nas famílias de militantes desaparecidos, indecisão no governo e calafrios nas forças armadas.
Mesmo assim, sempre há um outro viés a ser abordado. Foi grata minha surpresa ao encontrar o filme Batismo de Sangue na prateleira da locadora hoje. Trata-se de uma filme baseado no livro homônimo de Frei Betto, o que por si só já o torna especial. Não cheguei a ler esse livro, mas recomendo A Mosca Azul, que o autor escreveu após deixar o governo Lula e que alimentou bastante minhas esperanças. Betto é um grande exemplo de humanista, um homem de notável inteligencia e sensibilidade e dono de um texto absolutamente delicioso.
O filme é dirigido por Helvécio Ratton (Uma Onda no Ar*) e conta parte da história dos frades dominicanos que apoiaram grupos guerrilheiros. Pode-se imaginar a gravidade do problema do país e o tamanho da coragem que levaram padres a tal atitude. E também a reação interna na Igreja, que se manteve praticamente a única instituição forte que carregava certa independência do regime mas para qual sempre foi complicado admitir o envolvimento de religiosos com a política, especialmente nesse caso de luta armada. Foi graças à prisão e tortura de alguns padres que o governo consegui armar uma emboscada para matar Carlos Marighella, um dos mais importantes guerrilheiro do país, ao lado de Carlos Lamarca. Entre os padres apoiadores estava Frei Tito, personagem principal do filme, que após preso e torturado foi exilado na França e enforcou-se num convento ainda atormentado pelas lembranças das torturas e do seu torturador.
Para um jovem como eu parece muito difícil conceber que tudo isso aconteceu em nosso país há tão pouco tempo. Isso porque a ditadura brasileira foi fichinha perto do que ocorreu em outros países como Chile e Argentina. Aliás, curioso que vários governos militares emergissem ao mesmo tempo por toda a América Latina. O filme chileno Machuca se passa no período de forte embate que antecedeu a derrubada do governo de Salvador Allende e a implantação da ditadura sanguinária de Augusto Pinochet. Um filme belíssimo que assim como O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias e Cuba Libre utiliza a sensibilidade e a visão inocente das crianças para retratar pequenas mudanças e descobertas da infância durante grandes e singulares momentos históricos.
Ao fim, o que o personagem de Frei Tito fala no filme e que Frei Betto afirma em seu livro é que a luta contra a ditadura foi feita “em nome do povo e não com o povo”. O que não significa que não tenha valido a pena. Mas que serve como lição para que possamos refletir a cada vez em que pensemos em fazer algo em benefício dos verdadeiros oprimidos.
* “Uma Onda no Ar” é baseado na história real da Rádio Favela de Belo Horizonte. Um ótimo retrato da situação das rádios comunitárias no Brasil.
1 Comentário
Junho 26 , 2008 às 11:39 pm
[...] quem não assistiu fica recomendado o filme Machuca, que já comentei num post bem antigo. Pra quem quer saber mais sobre os momentos anteriores da queda de Allende, quem conta [...]