O Le Monde Diplomatique Brasil publicou recentemente (edição de janeiro deste ano) uma matéria sobre a nova cara da juventude latino-americana. Com base numa pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, uma fundação de utilidade pública sem fins lucrativos que estudou diversos aspectos da vida de jovens do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia e Peru em cooperação com instituições locais, foi possível chegar à conclusão que é cada vez menor a massa de latino-americanos jovens apáticos e desinteressados. É crescente o número de movimentos de reivindicação e de expressões, coletivas ou até isoladas, que ajudam a nos caracterizar gradualmente como uma população que exige mudanças.
Essa transformação é decorrente, entre outros fatores, de um esgotamento que surge da insatisfação com as condições de trabalho, educação e vida de uma população predominantemente pobre cujo acesso ao conhecimento é bastante restrito. Uma das principais forças desse processo é a exagerada desumanização que exige de cada um de nós um constante aumento da produtividade e a submissão a práticas de mercado cada vez mais algozes. Por um lado há aqueles que se submetem às condições e favorecem a competitividade negativa e a desunião entre estudantes e trabalhadores. Por outro, no entanto, surgem com intensidade crescente movimentos críticos que têm a sensibilidade de perceber que é preciso encarar as conseqüências de uma mudança drástica. É como se enxergassem que estamos todos no mesmo barco e passassem a agir na conscientização de que a força está do lado de cá e que é preciso nos mexermos.
A pesquisa classifica iniciativas que vão desde a criação de um blog (!) até movimentos organizados que exigem direitos, como os piqueteros argentinos, passando por grupos musicais que cantam a resistência. Todas são formas de expressão que transmitem insatisfação e promovem questionamentos, sugerem mudanças.

A carteira assinada não significou mudança na vida dos cortadores de cana do interior de SP. Foto: Flávio Condé/Ibase
Mesmo com o surgimento de novas frentes que defendem, por exemplo, o trabalho com carteira assinada, a mudança na prática nem sempre ocorre como esperado. Um dos casos estudados pelo Ibase foi o dos cortadores de cana do interior de SP, que conquistaram o direito do registro em carteira mas continuam trabalhando sob um ritmo violento. Na foto acima é possível ver a gritante contradição: carteira assinada versus mãos calejadas, mutilações e um total desrespeito à essência humana do trabalhador. E a história se repete, sob diferentes aspectos, por toda a América Latina. É aí que entra a importância de movimentos que podem declarar insatisfação e exigir melhores condições de vida.
Ainda que muito tenha que ser feito, os exemplos existentes demonstram consciência e sede por transformação. São passos que precedem a mudança maior.
No próximo post, exemplos da resistência da juventude latino-americana a partir da música. Até lá!
Rodrigo Sánchez
3 Comentários
Maio 11 , 2008 às 5:37 pm
Hmm.. interessante!
Então nosso blog é um ponto de resitência?
rsrsrs
Maio 11 , 2008 às 8:22 pm
e não é que os movimentos de resistência têm se apropriado dos espaços virtuais?! vida longa aos blogs coletivos!
e carteira assinada nem sempre significa respeito aos direitos trabalhistas…há de se levar em consideração as práticas locais de “justiça”, por exemplo, as compensações entre patrões e empregados, desde que estes continuem numa situação de obediência. daí a importância dos grupos produtivos autogestionários nos quais a relação patrão-empregado é substituída pela solidariedade entre os trabalhadores, e que fazem parte de movimentos que propõem mudanças.
Junho 24 , 2008 às 9:21 pm
[...] resistência do jovem latinoamericano através da música Jump to Comments No meu post retrasado falei sobre a nova cara da juventude latinoamericana abordada numa matéria do Le Monde [...]