Maio 17 , 2008...4:35 pm
O Haiti, definitivamente, não é aqui!
Hoje o Globo Esporte fez uma matéria super-bonitinha sobre as tropas brasileiras no Haiti e como o esporte ajuda as criancinhas a serem mais felizes. Por isso, resolvi antecipar esse post, que pretendia publicar em “comemoração” aos quatro anos que o Brasil chefia ocupação da Onu no país, que se completará em junho. Na verdade serão dois posts, um sobre a história recente que levou à situação de hoje e outro sobre a ocupação propriamente dita.
O que acontece com o Haiti, o país mais pobre do continente americano? É complicado dizer mas se a mídia de massa não mostra tentemos nós, reles blogueiros, cumprir o desafio de esclarecer um pouco melhor a situação desse país, ex-colônia francesa na qual ocorreu um movimento único de revolta de escravos que fez do Haiti o primeiro país a declarar independência na América Latina.
Na história mais recente do país, poderíamos começar falando da sangrenta ditadura anti-comunista apoiada pelo Tio Sam (óbvio!) de François Durvalier- conhecido como Papa Doc-, que se se valeu de uma forte repressão através da polícia secreta chamada Tortons Macoutes (tradução: Bichos-papões). O ditador morreu em 1971 mas já havia preparado terreno para que seu filho Jean-Claude Van Damme Duvalier- o Baby Doc- assumisse o poder. Habemus Papam Júnior! Baby, recém-saído das fraldas (deve ser por isso que só fez cagada!), tinha 19 anos e de acordo com a Constituição para assumir um presidente deveria ter no mínimo quarenta. Mas nada que um Congresso biônico e um referendo “popular” fraudado não resolvessem. Acreditem: o resultado do referendo foi 2.239.916 a zero a favor do menino sentar no “trono”!
Tal pai, tal filho… mantida a política de devastação política e econômica por Baby, o bicho começou a pegar no iníco da década de 1980. Mas dessa vez os bichos-papões não eram os Tortons Macoutes e sim movimentos populares, apoiados da Igreja Católica. Tadinho do Baby Doc, teve que fugir pra França em 1986 com seus 100 milhões de dólares.
Porém a derrubada do durvalierismo não representaria uma mudança significativa na faminta sociedade haitina. Mas a esperança é única última que morre. Em 1990 seriam realizadas as primeiras eleições livres do país no qual seria eleito com ampla maioria dos votos (67%) Jean-Bertrand Aristide, também conhecido como Titid. Aristide era um padre ligado à Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja Católica, que participou da organização popular em regiões de extrema pobreza. Em sua plataforma de campanha estava a promessa de profundas mudanças sociais como alfabetização, reforma agrária e distribuição de renda.
Mas agente sabe que nem todo mundo acha legal esse negócio de alfabetização, reforma agrária e distribuição de renda. E pra se manter no comando da “paróquia”, Titid teve que negociar com as elites herdeiras dos tempos dos Durvalier. E aí claro que entra em cena o liberalismo econômico defendido pelos EUA com o chamado Consenso de Wahington.
Mas vocês o povo é bobo? Com tamanha contradição as pressões populares voltaram. Aristide, mais perdido que padre em terreiro de macumba, tentou conciliar. Até que resolveu tomar partido. Em 27 de setembro de 1991, em discurso para 20 mil pessoas deu um ultimato aos ricos haitianos: “dêem trabalho ao povo, aproveitem essa oportunidade, pois é a última que lhes dou.”
A resposta viria três dias depois: um golpe de estado derrubou o presidente, que teve que fugir do país. Dali foi pra Venezuela e depois para os Estados Unidos, acolhido pelo partido democrata (isso não vai dar certo…). Os democratas eram oposição ao governo de Bush pai, o qual acusavam de apoiar o regime militar haitiano. Em 1993, o goveno democrata de Clinton promove o retorno de Aristide: 20 mil soldados estadunidenses com aval da Onu invadem o Haiti e recolocam o ex-padre no poder. Ex-padre, agora aliado do Satã imperialista…
Claro que Aristide não era mais o mesmo. E a continuação de seu governo interrompido ganhou o cunho do neoliberalismo: privatizações, repressão aos movimentos sociais. Nas eleições seguintes (1996) Titid não poderia concorrer por não ser permitida a reeleição, porém seu candidato venceu com facilidade. Mas no ano seguinte o partido governista se partiu. Em 2000, após muita lenga-lenga e disputas políticas acirradas Aristide seria eleito novamente presidente após boicote eleitoral da oposição, antes aliada.
Aí virou festa: neoliberalismo e corrupção à vontade! Como conseqüência vieram numerosos protestos populares. Por outro lado, diante da instabilidade, os militares já arregalaram os olhões pra voltarem ao poder. Até que… (tchan tchan tchan!) golpe militar! Mas dos EUA- e “em defesa da democracia”, claro! Em fevereiro de 2004, para evitar um golpe das Forças Armadas Haitianas entra em cena a polícia do mundo, exército estadunidense, que invade o Haiti novamente com aval da Onu. E aí começa um novo capítulo dessa triste história de dominação do primeiro país a se libertar na América Latina.
(continua no próximo post…)
Vitor Taveira
4 Comentários
Maio 18 , 2008 em 10:20 am
Superou minhas expectativas!
Ser sádico, como pode temperar com humor uma história triste dessas? : P
Excelente texto, seria mais belo se não fosse tão triste a história (o que não é culpa sua - eu acho).
Ansiosa pelo próximo capítulo…
=D
Maio 18 , 2008 em 10:39 am
Detalhado e explicativo. Adoreeei, pessoa!
mas isso já era de se esperar!
e façominhas as palavras da Gaby: Excelente texto, seria mais belo se não fosse tão triste a história (o que não é culpa sua - eu acho).
beijos!
Maio 18 , 2008 em 3:48 pm
[...] Autores O Haiti, definitivamente, não é aqui! [...]
Maio 18 , 2008 em 4:28 pm
Já falei para não acreditar em padres!
Imagino como pensa um soldado brasileiro no Haiti, deve se imaginar numa imensa favela, sendo um herói como Capitão Nascimento.
Ou pensaria como o General Urano, que pensou bem e tanto que acabou tremendo no gatilho que acertou tua própria cabeça.
“por vontade própria, obrigado.”
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