A decadência e reprovação da herança neoliberal levou a eleição de governos mais a esquerda na maioria dos países sul-americanos e alguns centro-americanos. Pode-se se ver como uma onda reativa ao modelo que vigorou com força nos anos 90, o que permite falar numa nova conjuntura política latino-americana. Porém é preciso notar as especificidades de cada país, uma vez que ainda que cada processo nacional apresenta certo caráter popular, social e de integração continental, os processos apresentam particularidades provenientes de cada conjuntura social e eleitoral das nações. Aqui vamos focar nas relações dos governos com os movimentos sociais em diferentes países.
No caso do Brasil, os movimentos sociais apoiaram em peso a candidaturas vitoriosas de Lula em 2002 e sua reeleição em 2006, seja por entusiasmo em ter ouvidas suas revindicações ou pelo medo do fantasma dos governos tucanos. O Lula que chega ao poder já deixa explícito que seria um candidato conciliador de interesses entre a elite e os desfavorecidos e de fato isso aconteceu e levou a avanços em alguns setores e estagnação ou retrocesso em outros. Sem maioria parlamentar para aprovar projetos de teor popular, o governo decidiu apostar na negociação e busca de consensos no âmbito institucional e acalmar as organizações sociais de esquerda, substituindo a repressão dos mandatos anteriores pelo diálogo. Ainda assim, os ataques da imprensa e dos setores dominates da sociedade brasileira foram fortes e levaram a maioria dos movimentos sociais a atuar na defensiva, apoiando o governo e suas bandeiras. Parte da esquerda reclama da lentidão do processo ou até do retrocesso sob o comando de Lula e decidiu fazer oposição. Isso leva um aumento da tensão interna dos movimentos sociais, com disputa de projetos e cargos nos movimentos estudantil e sindical, sem contudo ameaçar substancialmente a hemegomia do PT e governistas, que mantém a direção de entidades como a UNE e CUT. Já o MST assume uma postura independente, focando-se na sua principal bandeira que é a reforma agrária: reconhece os avanços do novo governo porém reivindica o cumprimento das promessas de reforma agrária, que caminha a passos lentos no país.
Essa postura do MST encontrar ressonância em muitos movimentos camponeses latino-americanos, a maioria de caráter indígena. Inclusive as próximas eleições brasileiras prometem uma nova surpresa: candidaturas de indíos da região amazônica, seguindo o que acontece em países vizinhos. O governo de mais forte caráter indígena certamente é o de Evo Morales na Bolívia, ele próprio de etnia aymara. Sua eleição vem da decadência dos tradicionais partidos e da emergência do MAS, um novo partido de grande força no campo que se define como “instrumento político para a soberania dos povos”. Nesse caso, os movimentos indígenas parecem impulsionar o governo, sendo que muitas vezes realizam “paros” e protestos para pressionar o governo que elegeram.
A identificação e compreensão entre povos nativos e governo que existe na Bolívia não encontra mesma ressonância no Equador do presidente Rafael Correa que recebe forte apoio dos setores de esquerda. Uma líder indígena equatoriana da província de Cañar me disse que realmente há uma grande incompreensão do governo em relação ao modo de pensar e viver dos povos originários. Eles consideram que os que dirigem o país vêem os povos indígenas como um grande grupo de iguais quando na verdade são uma fruto de inumerável quantidade de etnias e culturas. E que ainda que a constituição lhes garanta muitos direitos eles não seriam cumpridos não fosse a mobilização e luta do movimento indígena nas ruas. Há denúncias de repressão e abuso policial como no caso de Dayuma em 2008. A proposta para uma nova lei da água provocou uma nova polêmica que reforça essa contradição, como relata a jornalista Elaine Tavares.
Na Colombia, a situação de ter um governo nacional direitista e aliado estratégico dos EUA na região é ainda mais complicada devido ao problema dos conflitos entre guerrillhas, paramilitares e forças do Exército. Há uma complexa mistura entre forças políticas e narcotráfico. O país é divido entre áreas de atuação de guerrilhas e dos paramilitares, que executam os “serviços sujos” para o governo. No meio desse conflito surgem os “desplazados”, pessoas expulsas de suas casas e comunidades por essas forças. Mortes e sequestros também fazem parte da vida de camponeses e indígenas, como mostra a reportagem de Natália Viana para o portal operamundi.
A Venezuela, país de processo político mais radical, parece ser impulsionada por seu governo, que estimula a organização popular especialmente através dos Círculos Bolivarianos. O governo Chávez supre uma lacuna que ficou vazia desde a crise dos partidos tradicionais que se alternavam no poder durante décadas e culminou na grade crise social que teve seu ápice no Caracazo, em 1989. O país gozou de boa estabilidade devido ao boom do petróleo, sendo dominado por um bipartidarismo elitista que o permitiu ser um dos poucos países livres de ditaduras militares nos anos 70 e 80. Mas o declínio dos preços de seu principal produto na balança comercial iria escancarar o endividamento provocado pelo modelo e provocar uma profunda crise econômica e social, da qual emergeria o líder Hugo Chávez encabeçando um novo partido, o MVR (e posterior unificação das esquerdas no PSUV), e pleiteando um governo de transformação e justiça social. Daí o movimento que se manifestara espontaneamente no Caracazo, a partir do desespero da população diante da crise, ganha impulso para organização e instituicionalização na defesa da chamada Revolução Boliviariana.