Junho 14 , 2008

A Supremacia Britânica “Rock’s” Na América Latina!

Com toda essa polêmica diplomática entre a Inglaterra e o Brasil sobre as restrições a entrada de brasileiros nas terras da rainha, lembrei da história que eu ouvi em La Paz sobre a origem das cartolinhas utilizadas pelas cholas, típicas bolivianas com suas inúmeras saias rodadas e chales, indumentária inspirada no guarda-roupa das senhorinhas do século XIX.

Vamos à história. Muitas cholas ainda usam uma cartolinha à la lorde inglês sobre suas cabeças, outras aboliram o uso de qualquer objeto sobre suas melenas, outras ainda, voltando a origem indígena, preferem chapéus com ornamentos florais. As que insistem nas cartolinhas (ou chapéu coco) talvez nem saibam o por que que as faz,- e fez -, portar tal ornáculo.

Diz a lenda que um comerciante inglês, nos idos do XIX século, estava com um carregamento de cartolas masculinas encalhado. Embora não houvesse na Bolívia nem clima nem moda para a utilização de tal elemento do vestuário masculino, senhor business man teve uma odéia genial : espalhou pelos arredores bolivianos que a última moda na Europa era o uso de cartolas masculinas, por coincidência, idênticas as que ele vendia, por ladys inglesas. As senhorinhas bolivianas sedentas por seguir a “moda” européia, logo aderiram ao uso do artefato para protejer suas delicadas madeixas. Daí para as cholas, que já copiavam o estilo das senhorinhas, aderirem também a esta “moda”, foi um passo rápido e bem lucrativo para o hermano inglês.

Além de iludir as bolivianas, os ingleses também empurraram muitas bugingangas saxônicas ao mercado brasileiro após a abertura dos portos brasileiros as nações amigas, - entenda-se por isso a Inglaterra -, em 1808, os ingleses apoderaram-se do mercado nacional, passando a dianteira mesmo aos portugueses de quem o Brasil fora colônia e dos quais seus “nobres” ainda comandavam as políticas em terras tupiniquins.

Assim, mais uma vez a História se repete. Abertura dos portos, ou dos portões de aeroportos no caso atual, as nações amigas continua sendo uma via de mão única, na qual a Inglaterra quer receber (de tudo menos subdesenvolvidos ilegais) sem dar nada em troca (com exceção dos mandados de deportação).

É, e eu que acreditava que as mesmas águas nunca passavam duas vezes pelo mesmo rio !

Cartolinha nelas e pé na nossa bundinha ! Thank you, sir !

Monica Dinah

Junho 14 , 2008

Ni de aquí ni de allá

Nem daqui, nem de lá. É assim que se sentem muitos dos latinos que vivem nos Estados Unidos. Algunas pesquisas projetam que em pouco tempo os latino-americanos superarão os negros como a maior “minoria” dos EUA. E em ano de eleições na terra do Tio Sam, os votos de nossos hermanos podem ser decisivos para o resultado final.

A invasão latina têm transformado algumas regiões dos EUA em bilíngues, fora a grande difusão cultural, a música hispânica, novelas, canais de televisão voltados para esse público. O efeito econômico também é relevante. Manifestação em Chicago a favor dos direitos dos imigrantes

Lembro-me de quando visitei a sede Socialist Workers Party, em Nova Iorque (Sim, existe partido socialista no EUA!!! E trotskysta!). O partido produz o jornal The Millitant, que existe há mais de 75 anos e que agora possui edição impressa em english y español. Pode-se conversar com os membros redação tanto em uma lengua como em outra e nota-se no expediente do periódico e também nos endereços de postagem (eu ajudei a colar a etiqueta de postagem em alguns deles) a presença de muitos nombres y apellidos hispânicos. Isso me fez perceber que talvez os latinos possam ser a grande fuerza social para pressionar por cambiar a sociedade estadunidense. iSí, se puede!.

O editor do jornal Argus, me contou a história dos trabalhadores das minas de carvão. Há algum tiempo, era um trabalho que embora exigisse pouca qualificação e muito serviço braçal possuia salários relativamente altos por se tratar de una condición laboral bastante degradante e danosa à salud humana. Contudo, de uns tempos pra cá houve uma invasão de latinos, que se propõe a trabalhar por um salário mínimo. O editor mostrou-me fotos das peleas desses mineiros por mejores condições de trabalho. Notava-se a predominância de fisionomias latinas.

O interessante é observar que os EUA tanto investiram na propaganda ideológica (especialmente na Guerra Fria) talvez crendo que os habitantes dos países subdesenvolvidos aceitariam o capitalismo e se conformariam com el sueño de quem sabe um dia desfrutar do “american way of life“. Pero a vida é agora e os subdesenvolvidos querem condições de vida ahora, ayer, mañana, ipara ya! Se não conseguem em seus países vão buscarla onde podem conseguir tirar uma grana pra sustentar sua família. É normal ter uma visão dos imigrantes como passivos, que vivem para trabajar. Porém as coisas não são tão simples assim e cada vez aparecem novas formas de resistência en corazón del Império. La lucha pelos direitos dos imigrantes tenta enfrentar o neoconservadorismo da Casablanca e os latinos não estão sozinhos nessa.

Como dijo Emiliano Zapata: “Prefiero morir de pie que vivir siempre arrodillado”. ¡A la lucha! Hasta la victoria, siempre…

Música
O rapper Jae-P é um chicano (filho de mexicanos nascido nos States). Suas músicas tratam da realidade dos latinos nos EUA, do preconceito, subemprego, aculturação e defende a união dos latino-americanos em busca de mejores condiciones. O cantor mistura interessantíssima de espanhol e inglês em diversas canções. Suas letras certamente hablan mucho más que eu tentei dizer nesse post.

Ni de aquí ni de allá é o nome de um dos seus álbuns, um nome representa bem a nova geração de latino-americanos, que embora se veja ligada à cultura herdada de seus país hispânicos, possuem forte ligação com o território norte-americano, onde nasceram e foram criados. Eu baixei o disco Esperanza, recomendadíssimo!

Músicas:
 Jae-p - Ni de aqui ni de alla.
Latinos Unidos (download)

Filme
Um Dia Sem Mexicanos é um filme lançado em 2004. A idéia é delirante e provocativa: imagine se os latino-americanos (todos são vistos pelos americanos como mexicanos, por isso a ironia do título do filme) simplesmente desaparecessem de uma hora para outra da cidade de Los Angeles. É essa idéia que conduz a comédia dirigida por Sergio Arau. Comédia por se tratar de um filme, posto que fosse real estaria mais para tragédia. Ainda não assisti ao filme, porém algumas críticas condenam a visão passiva em que os imigrantes são retratados na obra, o que seria uma própria antítese da abordagem desse post. Mesmo assim estou curioso para conferir.

Vitor Taveira

Junho 12 , 2008

Pensadores latino-americanos

O vídeo abaixo foi produzido pelo Institulo de Estudos Latino-Americanos da UFSC (Iela) e conta um pouco da história e idéias de Ruy Mauro Marini e Darcy Ribeiro, dois brasileiros que se tornaram grandes pensadores da América Latina.

Frases:
“A história do subdesenvolvimento latino-americano é a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial” (Ruy Mauro Marini)

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui.Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias.Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” (Darcy Ribeiro)

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Em entrevista à Rádio Agência Notícias do Planalto (disponível para áudio e leitura), a economista, educadora popular e integrante da Consulta Popular/ES Roberta Traspadini analisa as relações do pensamento de Ruy Marini, Eduardo Galeano e Josué de Castro.

Trecho:
“Josué de Castro sustentava que sem violência não era possível frear a violenta ação capitalista. Marini dizia que a revolução não deveria ser pensada a partir das táticas viáveis do reformismo desenvolvimentista no continente. Galeano mostrava que as veias abertas, para permitirem uma livre, e real, circulação das riquezas e dos povos de Nossa América, deveriam se livrar desse câncer circulatório e reprodutivo que é o modo de funcionamento do aparelho capitalista. Os três mestres juntos nos dão uma bela síntese do que fomos, somos e podemos ser. Para ser, não devemos permitir que nosso sangue continue absorvido pelo vampiro que há anos suga o que de mais rico e originário temos: a história dos povos latinos, anterior ao capital e para além dele.”

Vitor Taveira

Junho 10 , 2008

Mi Santiago de Chile querida

No meio da correria das provas, um post leve pra não perder de vista. E dicas pra quem visitar Santiago.

Santiago tem cheiro de baunilha. E as meias de frio são infinitamente mais gostosas que as que existem em qualquer outro lugar do mundo. O povo tem as bochechas rosadas e os coletivos não aceitam dinheiro. No último dia dos namorados que passei lá (e eles se baseiam no Valentine’s Day), era possível usar o transporte público de graça. As rádios têm muito bom gosto. Era bom ligar o som que ficava na cabeceira da cama à noite. As emissoras pareciam saber exatamente o que combinava com as noites frias em que a pedida era se enfiar debaixo do cobertor mais quente disponível na habitación. Os chocolates mais vagabundos eram tão bons quanto os melhores fabricados por aqui. De modo que, na primeira vez em terras chilenas, contrabandeei um quilo e meio de barras (de chocolate!). O guardinha não deixava tirar foto do shopping, mas a gente deu um jeito de registrar o dito cujo na máquina. Era bem bonito. O shopping, não o guardinha. Não somos terroristas nem nada, ué. Por que não podíamos fazer una fotito? Um taxista engraçadinho quis arrancar da gente um valor dez vezes maior que o verdadeiro da corrida. Só que a Loi descobriu o truque e desmascarou o safado. A dica é caminhar pelo parque antes de ir ao shopping. Você economiza, se exercita e conhece o Arauco (foto). É lindo lá! E quando tiver chegado ao shopping homônimo, não deixar de visitar a Zoo Concept. É de se render e querer gastar o salário inteiro $_$. Se for vegetariano/a (ou não), aproveite pra conhecer o Pitas Crepes & Waffles. E dê umas voltinhas que do lado de fora tem a B Music, uma loja de cds ótima. Mas sai, sai do shopping porque ir ao Chile pra se enfurnar em centro comercial… não! Dê uma volta de planador sobre a cidade e pegue umas térmicas aos pés das Cordilheiras. Ou dê um jeito de conhecer uma estação de esqui, de preferência não muito popular. Os preços são mais acessíveis e a ausência de turistada bem mais agradável. E se eu puder te recomendar um grupo musical local, ouça os caras do Teleradio Donoso. :c)

Todo te va a quedar más claro,
todo te va a quedar más claro.

Rodrigo Sánchez

Junho 9 , 2008

Um Novo Jornalismo é Possível

Era uma vez, em um tempo longe deste, uma característica típica dos jornalistas: contar os fatos sobre a ótica do outro, que se perdeu!

E é exatamente isso que Garcia Márquez (é, ele DE NOVO!! rs ) tenta resgatar e passar aos seus pupilos na Fundação Novo Jornalismo Ibero-Americano. O jornalista e escritor fundou a instituição em 1994 na cidade de Monterrey - México. A idéia surgiu, segundo o próprio Garcia Marquez, do seu desejo de compartilhar suas experiências na área e incentivar os jovens jornalistas, assim como sua crença na eficácia do método de aprendizado baseado em workshops e debates entre professores e alunos. “É um constante aprende - ensina”, disse ele uma vez.

Se disser que esse é um centro internacional para o desenvolvimento profissional dos jovens jornalistas, para a troca de experiências entre colegas de profissão da Ibero-América, ou um espaço de discussão sobre a ética e as técnicas do ofício de informar, até mesmo se disser que apoia e executa projetos para o melhoramento e inovação dos meios de comunicação, se preocupando com o social, o político, o cultural e o ambiental; E por fim que presa primordialmente pelo contato e calor humano que nutre a profissão, não estará mentindo em nenhuma dessas afirmações. Essas são as maiores preocupações e projetos da fundação, que conta em seu corpo docente com 72 profissionais renomados e de grande trajetória e experiência em toda a américa.

Um dos projetos da fundação é o Prêmio Fundação Novo Jornalismo Ibero-Americano, que acontece anualmente e contempla diversas áreas do jornalismo, como jornalismo investigativo, denúncia, radio, multimídia, fotografia, texto e homenagem. Em 2007 aconteceu o Prêmio Extraordinário, que premiou trabalhos de áreas como diversidade cultural, sustentabilidade, conhecimento e paz. Podem participar jornalistas de toda a América e Espanha. Para maiores informações: Nuevo Periodismo.

É, minha gente! Uma grande oportunidade para o pessoal da área. Lógico que não está para todos, mas que vale a pena dar uma olhadinha, pesquisar e pensar na possibilidade, vale! rs É, quem sabe, uma das poucas chances de ver tanta gente boa junto, e o melhor: com disposição para ajudar, ensinar e compartilhar! Como se diz por aqui: Arriégua!! Que eu também quero! =)

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Mariana Anselmo

Junho 5 , 2008

Diz mais que mil palavras…

Vitor Taveira

Maio 31 , 2008

Nove Rainhas

Nove Rainhas (Nueve Reinas, 2000) é um filme num estilo pouco comum no cinema latino-americano. O roteiro lembra alguns filmes hollywoodianos, mas dá um banho na maioria. Os personagens principais são dois golpistas, um principiante e um experiente. O jovem Juan (Gastón Pauls) acaba se dando mal ao tentar aplicar um golpe numa loja de conveniência de um posto de gasolina. Marcos (Ricardo Darín, de O Filho da Noiva e Clube da Lua, em mais uma ótima atuação) é um trambiqueiro profissional que está no estabelecimento no exato momento e salva Juan (enganando os outros, claro). Depois disso os dois resolvem ser parceiros por um dia.

Após de alguns pequenos golpes, eis que justamente nesse dia aparece uma grande oportunidade: vender selos falsificados para um milionário colecionador espanhol que está prestes a deixar a cidade. O que eles não contavam é que a todo momento aparecem novos picaretas, sempre querendo tirar alguma quantia dessa venda. Os dois se envolvem num jogo complexo com o objetivo de conseguir o melhor lucro possível na negociação dos selos. A impressão é que nada acontece por acaso. Sempre há alguém querendo se dar bem pra cima dos outros e acima de cada golpe parece haver sempre outro golpe, de modo que não se pode confiar em ninguém, nem mesmo no próprio parceiro.

É um filme de linguagem rápida, roteiro ágil e que consegue prender o espectador todo o tempo. Claro que para ser um grande filme do gênero não poderia deixar de ter um final surpreendente e engenhoso.

Assista ao trailer em espanhol:

Nove Rainhas foi o primeiro longa-metragem do diretor Fabián Bielinsky faleceu em 2006, aos 47 anos, vítima de ataque cardíaco. Sua outra obra foi A Aura (El Aura, 2005).

Vitor Taveira

Maio 28 , 2008

Libertem a língua!!!

O título eu repito do texto que inspirou esse artigo. As exclamações são minhas, ou melhor, são da língua, afinal tudo a ela pertence . Nós só repetimos repetimos repetimos e usamos conforme nossa conveniência de expressar idéias ou sentimentos, ou por pura vontade de brincar ou abusar com ela/dela. E ela nunca nos recriminou por isso. Mas a recíproca não é verdadeira.

O texto é só uma gotinha de saliva- doce ou amarga- dessa língua imensa. Como fala-se aqui o português supõe-se que estamos tratando, obviamente, do Português. E também falamos do português. O da letra maiúscula é a língua, o da minúscula é o homem, o autor do texto que me fez escrever este post. Homem de boa ventura é o Boaventura de Sousa Santos, intelectual respeitadíssimo em todo o mundo, que eu admiro e inclusive já citei na abertura blog.

O portuga nos discorre em seu artigo sobre o acordo unificação da nossa língua, que julga desnecessária.

“A ortografia é uma pequena dimensão da vida de uma língua. Qual a necessidade de um acordo ortográfico da língua portuguesa? Ela deveria ser deixada em paz, entregue à turbulência da diversidade que torna possível que nos entendamos todos em português.”

Mas se for necessário fazê-lo ele considera que não daria muito trabalho. Porém não é o que ocorre com a língua portuguesa. O autor explica que o que dificulta é a relação de colonialismo inverso entre Brasil e Portugal, que cria um mal-estar, como se fazer concessões ao português aqui falado significasse uma “rendição” do colonizador à colônia.

Apesar do grande impulso nas grandes navegações, Portugal foi sempre um país periférico na Europa. Ao optar pela colonização centralizada, criou um fantasma que até hoje o assombra. Ao contrário da Espanha, que dividiu seu território colonial em vários vice-reinados, os portugueses colonizaram um território imenso e riquíssimo como o Brasil sem essas subdivisões. O que resultou dessa diferença administrativa seria tema pra outro post e demandaria um pouco mais de estudo.

De fato surgiu uma colônia muito maior que o colonizador. E não é à toa que a cultura brasileira é de longe a mais influente em língua portuguesa, não só em Portugal como na África e no resto do mundo. Porém, é notório que estamos duplamente de costas aos nossos “irmãos”.

Talvez sobre certa soberba brazuca, já que sequer conhecemos o que é produzido em nos países de mesma língua que nós. E também como o maior país da América Latina e único que fala português há uma distância muito grande em relação aos nossos vizinhos. Não que o espanhol seja um obstáculo, já que são línguas bem semelhantes e perfeitamente comunicáveis. Mas agente não quer ver o que nos ronda.

O ensino de espanhol tem que ser obrigatório nas escolas brasileiras. E por favor, não traduzam para o português livros escritos em… português. O escritor moçambicano Mia Couto, por exemplo, exigiu que em seus livros lançados no Brasil fosse mantida a ortografia como ele escreveu. Dá pra entender perfeitamente e é muito gostoso sentir essa sutil e enriquecedora diferença.

Delícia que é desfrutar da linguagem. Seja nos livros do moçambicano Mia, do português Saramago ou do brasileiro Guimarães Rosa. Seja nas canções da chilena Violeta Parra, do cubano Carlos Puebla ou do brasileiro Chico Buarque. Somos latino-americanos e falamos português. Agente pode entender irmãos e hermanos. É só querer.

Vitor Taveira

Maio 25 , 2008

Un poco de Latinamérica!

A boa de hoje é o livro do Gabriel García Márquez: A Aventurade Miguel Littín - Clandestino no Chile. Dentro das páginas desse livro, mais do que uma boa história, está a memória de um homem, de um povo. Depois de uma série de encontros e boas prosas, García Márquez reuniu material suficiente para para escrever, com riqueza espantosa de detalhes, a aventura vivida pelo cineasta no Chile durante a ditadura de Pinochet.

Considerado inimigo da pátria, Littín recebe na Espanha (onde vive o exílio) a notícia de que não poderia mais pisar em solo chileno. Saudoso de seu país e seu povo, o cineasta, apoiado pela Resistência Chilena, volta clandestinamente ao Chile e filma por seis semanas um documentário sobre seu povo, o cotidiano, os efeitos e feitos da ditadura militar e o que há de melhor por lá. Contando com equipes de filmagens, percorreu de norte a sul o país e viveu e reviveu grandes momentos. O plano envolvia forte segurança e pessoas que estavam pelo mundo inteiro que eram ligadas a causa. Depois de vários momentos de tensão, surpresas e medo, Littín e suas equipes deixaram o país. O documentário recebeu o nome de Acta General del Chile, foi exibido no Festival de Veneza no ano de 1986. E esse é só um resumo da obra.

Uma puta história, né não? Essas coisas de perigo, ideias e valores sempre fascinam. Há três momentos no livro que são válidos, se não necessários, comentar. O primeiro foi a visita à casa de nada mais, nada menos, do que Pablo Neruda. A descrição do local, os detalhes, as inscrições talhadas na cerca em volta da casa pelos enamorados (coisas melosas e lindas como: Allende me ensinou o que é lutar e tu, Neruda, me ensinou o que é amar!). Até quem não é apaixonado por poesia, ou nem sabe quem é Neruda, se apaixona.

Mas esse momento não perde em nada para quando ele encontra a mãe e o tio, a quem não via há anos. O amor existente, o carinho e a felicidade saltam das páginas velhas (pelo menos era assim o livro que li! rs) e vão direto ao coração de quem lê. O estúdio dele, que a mãe conseguiu resgatar da ditadura e conservar em sua casa exatamente igual era na dele, mostra a certeza que ela tinha de ver o filho novamente. São os laços afetivos, o calor humano e o sentimento a flor da pele típico dos latinos.

E pra contrapor a todo esse ’sentimentalismo barato’ de primeira qualidade, a emoção que ele sentiu ao entrar na Casa de la Moneda e ver passar junto a ele seu maior inimigo (Pinochet em pessoa!!) é quase acessível às nossas emoções.

Não dá pra deixar de achar legal a idéia, ou vício como ele mesmo chamava, de anotar seus pensamentos, suas ideias e ações nas caixinhas dos cigarros que fumava. E andava com todas em uma mala, pois se alguem as achasse a coisa não ficaria muy mala! rs

É… Que foi um bom trabalho não dá pra negar! Bom trabalho do Gabo (eu já me sinto íntima mesmo!! rs) que escreveu, mais uma vez, com maestria. Com uma riqueza de detalhes e numa linguagem tão envolvente. E bom trabalho do Littín, que teve cara e coragem pra viver essas histórias. Que arriscou a vida para mostrar ao mundo as atrocidades de um ditador e que fez tudo pelo seu sonho e pelo seu povo.

Mariana Anselmo

Maio 23 , 2008

A Guerra do Paraguai Que Não Queremos Ver!

As atrocidades históricas como escravidão ou falta de reforma agrária são fatos que ainda mancham a História do Brasil. Agora pensemos em um país felizmente desprovido de tais máculas. Parece impossível para nós e para quase todos os países latino-americanos, mas mesmo com a História pregressa da América Latina, de aniquilamento social e cultural, houve um pequeno país que soube até 1864 o que era cidadania e igualdade. Um país que não tinha dívida externa, nem escravidão ou crimes relacionados à luta por terra, um país com indústria emergente e independente, no qual seu povo não conhecia o analfabetismo, o primeiro país em toda América do Sul a construir uma ferrovia, em suma, um país independente do jugo inglês e de seu imperialismo que tinha na América Latina um promissor campo de exploração.

Feita desta forma, esta descrição pode não dar muitas pistas sobre qual país estamos falando, entretanto se pensarmos no país que se transformou essa pequena potência após os idos de 1864, com alto nível de pobreza e analfabetismo, incapaz de manter uma “realidade” industrial relevante ao mercado, sendo obrigado a importar de tudo, um país difamado, sinônimo incredibilidade e ineficiência, um país com uma dívida externa exorbitante. Um país com um passado peculiar e, agora talvez, com um futuro no qual pensar depois da eleição, em 20 de abril de 2008, de Fernando Lugo para presidente, mas com um presente inerte.

Se você pensou no Paraguai, acertou. De potência latino-americana a paraíso da pirataria, há na História do Paraguai um fato determinante que explica essa perturbadora transformação: A Guerra do Paraguai.

Em 1864 o Paraguai declarou guerra contra o Brasil depois de intervenções brasileiras em território uruguaio. Em 1865 foi formada a Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai, financiada pela Inglaterra, descontente com o avanço, principalmente, da indústria siderúrgica paraguaia e com a reluta deste país a contrair empréstimos financeiros ingleses.

A versão oficial para o estopim da guerra, seria a vontade magnânima da Inglaterra de liberar paraguaios inocentes do poder ditatorial de Fernando Solano López (1862). Para vender sua produção industrial e agrícola para os países vizinhos, os paraguaios necessitavam cruzar a Bacia do Prata, o que chegava a acarretar alguns conflitos e, essa teria sido a desculpa perfeita para Brasil e Argentina com o auxílio do Uruguai e pressionados pela Inglaterra, levassem o Paraguai a declarar a guerra contra o Brasil.

Sob o lema “Vencer ou Morrer” e o comando de Solano López, os paraguaios entraram na guerra com um total populacional de 800 mil habitantes, lutando para defender seu território; ao contrário do que ocorreu do lado brasileiro. O Brasil não dispunha de um exército formado antes da guerra, apenas uma Guarda Nacional formada pela aristocracia brasileira, os chamados “coronéis”, responsáveis por manter a paz, entenda-se por isso, a escravidão vigente, a posse de terras e o abuso de poder. Alguns aristocratas enviaram seus filhos a lutar na guerra, entretanto a maioria enviou escravos seus para representá-los. Ao longo da disputa, as terras foram necessitando de braços que estavam morrendo nos campos de batalha, descontentes com os prejuízos, os “coronéis” começaram a recusar o envio de escravos ao fronte, a solução encontrada pelo comando militar brasileiro foi adotar a política do recrutamento voluntário, o que recebeu o nome de “Voluntários da Pátria”. Contudo, olhando a História um pouco mais de perto, vê-se que esses voluntários, não iam à guerra por vontade própria, ao invés disso, eram seqüestrados e vendidos para o exército. Eram homens pobres, doentes mentais ou com alguma incapacidade; aqueles que não tiveram recursos financeiros para comprar sua liberdade acabaram tornando-se os “voluntários da pátria”. Além dos “voluntários”, o exército contava com o auxílio de mercenários que lutavam em troca de dinheiro e mesmo assim, o Brasil tinha dificuldade para vencer os paraguaios.

A guerra ia se arrastando ao longo dos anos sem possibilidade de uma trégua a vista, informações sobre as atrocidades realizadas durante a batalha chegavam aos ouvidos dos brasileiros e ia-se desmoralizando a luta e o Império. Tal era o quadro que se apresentava nos idos da guerra que em 1869, Duque de Caxias pede demissão de seu posto de comando da guerra alegando que para ele a guerra já havia chegado a seu fim, se continuassem com ela se consagraria um verdadeiro genocídio de soldados paraguaios famintos e um exército falido. A vontade de Caxias por um tratado de paz não foi aceita pelo imperador do Brasil Don Pedro II, e para substituí-lo, o imperador designou seu genro, o francês Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel. Conde d’Eu tinha fama de sanguinário e de desprezar brasileiros.

Para fazer jus a sua alcunha de sanguinário, Conde d’Eu, no que foi a última batalha entre brasileiros e paraguaios, ordenou a seu exército de 20 mil homens o ataque ao exército paraguaio, formado apenas por 3500 pessoas entre crianças e mulheres, os últimos soldados restantes. Depois de exterminar os paraguaios restantes, o conde d’Eu ordenou que incendiassem os sobreviventes que haviam se refugiado em um campo próximo a batalha. Porém a guerra só terminaria depois que Solano López fosse assassinado, o que ocorreu em primeiro de março de 1870, seis anos após o início da guerra.

Com o fim da guerra, o Tratado da Tríplice Aliança dividiu entre si grande parte do território paraguaio. Cada país ao final da guerra, além dos territórios também contraíra dívidas exorbitantes com a Inglaterra que os perseguem ainda nos dias de hoje.

Em 1870 o Paraguai era um país endividado, destruído, com mortos e entulhos espalhados por todo seu território. De sua população de 800 mil habitantes restaram apenas 606 mil pessoas, das quais 40 mil eram mulheres adultas e apenas 2100 homens adultos, o que explica que mesmo atualmente a população do Paraguai seja jovem e não muito numerosa.

Estive recentemente em Ciudad Del Este no Paraguai e a visão da cidade não foi muito agradável. As pessoas parecem viver sem muito o que esperar do amanhã. Fora do circuito de compras, há uma cidade urbana, comum, sem grandes atrativos, propagandas, carros importados, parece que tudo está ali, as pessoas estão de passagem, sejam habitantes correndo para embarcar nos ônibus antigos, - olha que nem comunista o Paraguai é, nem embargo econômico sofre -, brasileiros desesperados para atravessar a fronteira com suas muambas, parece que ali ninguém quer ficar por muito tempo; por outro lado foi difícil encontrar alguém que soubesse a correta direção da rodoviária, talvez essa seja uma informação mesmo desnecessária, quando o presente clama por atenção.

Na rodoviária imagino ter ofendido uma garçonete ao perguntar se ela aceitava cartão de crédito, a garota esboçou uma expressão facial tão abismada que por um momento minha fome calou-se de vergonha. Pouco tempo depois descobri que pouco importa se vocês têm guaranis (a moeda oficial do Paraguai) ou não para pagar o que quer consumir porque eles não são necessários se você possuir dólares ou mesmo reais. Falando neles, as notas de guaranis são surradas, velhas, rasgadas, e as moedas têm pouco valor, imagino que a economia não tenha lastro suficiente para propiciar novas moedas ao mercado. Junto ao hino, a bandeira e a Constituição, a moeda de um país é aquilo que o define, o que dizer de um país no qual sua moeda não tem valor venal.

Andar por Ciudad Del Este é como se sentir no Brasil. Uma versão piorada da rua 25 de março em SP. As pessoas falam português o tempo todo, mesmo que você fale com elas em espanhol, o real pode ser usado normalmente, há brasileiros para todos os lados, a fronteira entre o Paraguai e o Brasil é praticamente inexistente, - do lado paraguaio -, pode-se cruza-la sem precisar de visto ou qualquer documento de identidade, as ruas são sujas, a música é sertaneja e as pessoas são simpáticas.

É triste saber o que foi o Paraguai antes da guerra e o que ele se tornou depois dela. E, pensar que ao menos a América do Sul, se tivesse se unido para fortalecer o Paraguai ao invés de destruí-lo, teria evitado traumas sociais como a escravidão, analfabetismo, conflitos por terra, desmatamento da Amazônia e tantas outras atrocidades as quais vamos nos acostumando a esquecer, poderiam ter sido evitadas ou ao menos minimizadas e talvez, quando alguém falasse que iria mochilar pala América do Sul ouvisse algo menos obsceno do que “Quer ver desgraça? Fica no Brasil!”.

Agora é possível compreender porque não existe nenhuma mini-série sobre a verdadeira Guerra do Paraguai. A quem interessaria contar que o Duque de Caxias não fora herói, que a República brasileira foi um jogo de interesses e vaidade, ou que se não fosse pelo orgulho e status incutidos ao exército após o “êxito” da guerra contra o Paraguai, provavelmente os militares não teriam tido força política ou social para instaurar, quase um século depois, em 1964, a Ditadura Militar.

Pensemos todos nisso, brasileiros, argentinos, uruguaios, orgulhosamente matamos uma nação e condenamos outras três.

Monica Dinah